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quinta-feira, 5 de abril de 2012

Especial Semana Santa: O Estado Marital de Jesus

Não é minha intenção desacreditar os Evangelhos. Procuro localizar neles alguns fragmentos de verdade possível ou provável, extraindo-os da matriz bordada ao seu redor. Busco principalmente fragmentos de um tipo bem-definido, aqueles que pudessem indicar um casamento entre Jesus e a mulher conhecida como Madalena. É desnecessário dizer que essas informações não estariam explícitas. Para encontrá-las, temos que lidar com omissões, insinuações e referências oblíquas. E não podemos procurar apenas evidências de um casamento, mas evidências de circunstâncias que pudessem ter conduzido a um casamento. Devemos então nos fazer algumas perguntas. Comecemos com a mais óbvia delas: existe nos Evangelhos alguma evidência, direta ou indireta, que sugira que Jesus era casado?

Não existe, é claro, uma afirmação explícita. Por outro lado, não existe nenhuma afirmação explícita de que ele não era, e isto é mais curioso e mais importante do que possa parecer. Como já observou o Dr. Geza Vermes, da Universidade de Oxford, "há um silêncio completo nos Evangelhos quanto ao estado marital de Jesus. (...) Tal estado de coisas é suficientemente estranho no judaísmo para estimular pesquisas a respeito."

Os Evangelhos afirmam que muitos dos discípulos , Pedro, por exemplo, eram casados. E em nenhum ponto o próprio Jesus advoga o celibato. Pelo contrário, no Evangelho de Mateus (19:4-5) ele declara: "Não tendes lido que quem criou o homem, desde o princípio, fê-los macho e fêmea, e disse: Por isso deixará o homem pai e mãe, e ajuntar-se-á com sua mulher, e serão os dois numa só carne?'" Tal declaração não pode ser reconciliada com uma invocação ao celibato. E se Jesus não pregou o celibato, não há razão para supor que ele o tenha praticado. Segundo o costume judaico da época, não era somente usual, mas quase obrigatório que um homem fosse casado. Era obrigatório a um pai judeu encontrar uma esposa para seu filho, da mesma forma que o era assegurar sua circuncisão.
Se Jesus não fosse casado, este fato teria sido flagrantemente conspícuo. Teria chamado a atenção, sendo usado para caracterizá-lo e identificá-lo. Teria colocado Jesus à parte de seus contemporâneos, de forma significativa. Se este tivesse sido o caso, pelo menos um dos Evangelhos mencionaria tão marcante desvio dos costumes. Se Jesus fosse de fato celibatário, como pretende a tradição posterior, é extraordinário que não exista referência a isso. A ausência de tal referência sugere fortemente que Jesus, no que diz respeito ao celibato, vivia conforme as convenções de sua época e de sua cultura, em suma, que ele era casado. Só isto explica satisfatoriamente o silêncio dos Evangelhos sobre o assunto. O argumento é resumido por um respeitado teólogo contemporâneo:
Dado o pano de fundo cultural na forma como foi testemunhado (...) é muito improvável que Jesus não se tenha casado antes de começar sua vida pública. Se ele tivesse insistido no celibato, isso teria criado um frêmito, uma reação, que teria deixado algum traço. Assim, a falta de comentário sobre o casamento de Jesus nos Evangelhos é um forte argumento, não contra mas a favor da hipótese de casamento, porque qualquer prática ou defesa do celibato voluntário, no contexto judeu da época, teria sido tão estranha que teria atraído muita atenção e comentários.
A hipótese de casamento se torna ainda mais aceitável em virtude do título de rabino ter sido freqüentemente atribuído a Jesus nos Evangelhos. É possível, é claro, que este termo tenha sido empregado em seu sentido mais amplo, significando simplesmente um professor auto-nomeado. Mas o saber de Jesus, sua demonstração de conhecimento perante os anciãos do Templo, por exemplo, sugere fortemente que ele era mais que um autodidata. Jesus deve ter seguido algum tipo de treinamento formal e era oficialmente reconhecido como um rabino. Isto estaria conforme a tradição, que descreve Jesus como um rabino no sentido estrito do termo. Mas se Jesus era um rabino em sentido estrito, um casamento não teria sido provável, mas certo. A lei judia é explícita: "Um homem não casado não pode ser professor."
No quarto Evangelho há um episódio relacionado a um casamento que pode ter sido do próprio Jesus. Trata-se do casamento de Canaã, uma história que, apesar de bastante familiar, provoca algumas perguntas que merecem consideração. De acordo com a narrativa, o casamento de Canaã teria sido uma cerimônia local modesta, um típico casamento de vilarejo, cujos noivos permanecem anônimos. Para este casamento Jesus foi especificamente "chamado", o que talvez seja ligeiramente curioso, pois ele ainda não tinha começado seu ministério como rabino. Mais curioso, contudo, é o fato de que sua mãe "simplesmente" se encontra presente. E sua presença é tida como normal, embora não seja de nenhum modo explicada.
Além disso, Maria não só sugere a seu filho, mas na verdade lhe ordena que reponha o vinho. Comporta-se como se fosse a anfitriã (João 2:3-4): "E faltando o vinho, a mãe de Jesus lhe disse: 'Eles não têm vinho.' E Jesus respondeu: 'Mulher, que importa isso a mim e a vós? Ainda não é chegada a minha hora.'" Mas Maria, completamente à vontade, ignora o protesto do filho (João 2:5): "Disse a mãe de Jesus aos que serviam: 'Fazei tudo o que ele vos disser.'" E os servos prontamente obedeceram, como se estivessem acostumados a receber ordens de Maria e de Jesus.
Apesar da aparente tentativa de Jesus de repudiá-la, Maria prevalece; e Jesus realiza seu primeiro grande milagre, a transmutação de água em vinho. No que concerne aos Evangelhos, ele não tinha ainda demonstrado seus poderes; e não havia nenhuma razão para que Maria assumisse que ele os possuía. Mas mesmo que houvesse, por que deveriam tais dons, singulares e sagrados, ser empregados com um propósito tão banal? Por que deveria Maria fazer tal pedido ao seu filho? E, mais importante, por que deveriam dois "convidados" a um casamento tomar sobre si a responsabilidade de servir, uma responsabilidade que, por costume, seria reservada ao anfitrião? A menos, é claro, que o casamento em Canaã fosse o próprio casamento de Jesus. Nesse caso, seria sua a responsabilidade de servir o vinho.
Existem mais evidências de que o casamento em Canaã foi, de fato, o de Jesus. Imediatamente depois do milagre do vinho, o organizador da festa, que "governava a mesa", um tipo de mordomo ou mestre de cerimônias, prova o vinho recém-produzido. Em seguida, lemos em João (2:9-10): "O que governava a mesa (...) chamou o noivo e disse-lhe: 'Todo homem põe primeiro o bom vinho: e quando já os convidados têm bebido bem, então lhes apresenta o inferior. Tu, ao contrário, tiveste o bom vinho guardado até agora.'" Estas palavras parecem claramente dirigidas a Jesus. Segundo o Evangelho, contudo, elas são dirigidas ao "noivo". Uma conclusão óbvia é que Jesus e o noivo são a mesma pessoa. Mas se Jesus é o noivo, quem é a noiva?
Bodas de Canaã - Casamento de Jesus
 

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Especial Semana Santa: A História dos Evangelhos

Os Evangelhos surgiram de uma realidade histórica reconhecível e concreta; uma realidade de opressão, descontentamento cívico e social, ansiedade política, perseguições incessantes e rebeliões intermitentes. Os estudiosos modernos são unânimes em dizer que os Evangelhos não são do tempo de Jesus. Datam, em sua maior parte, do período entre as duas principais revoltas na Judéia, 66 a 74 d.C. e 132 a 135 d.C., sendo quase certamente baseados em narrativas anteriores. Estas narrativas podem ter incluído documentos escritos que se perderam, pois houve uma destruição massiva dos registros no despertar da primeira revolta. Mas havia, certamente, tradições orais. Algumas eram grosseiramente exageradas e/ou distorcidas, recebidas e transmitidas de segunda, terceira ou quarta mão. Outras, contudo, podem ter derivado de pessoas que viveram na época de Jesus e podem tê-lo conhecido pessoalmente. Um homem que fosse jovem no tempo da crucificação pode ter vivido também na época em que os Evangelhos foram escritos.

O primeiro dos Evangelhos é geralmente considerado como sendo o de Marcos, escrito durante a revolta de 66-74 d.C. ou logo depois, exceto por seu tratamento da ressurreição, que é uma adição posterior e espúria. Embora ele próprio não tenha sido um dos discípulos originais de Jesus, Marcos parece ter vindo de Jerusalém. Parece ter sido companheiro de São Paulo, e seu Evangelho porta o caráter inconfundível do pensamento paulino. Mas se Marcos era nativo de Jerusalém, seu Evangelho, como afirma Clemente de Alexandria, foi escrito em Roma e endereçado a uma audiência greco-romana. Isto, por si só, explica muita coisa. Na época em que o Evangelho de Marcos foi composto, a Judéia estava, ou tinha estado recentemente, em plena revolta, e milhares de judeus estavam sendo crucificados por se rebelarem contra o regime romano. Se Marcos quisesse que seu Evangelho sobrevivesse e se impusesse a uma audiência romana, não podia de forma alguma apresentar Jesus como um anti-romano. Não podia apresentar um Jesus politicamente orientado. Para assegurar a sobrevivência de sua mensagem, ele foi obrigado a aliviar os romanos de toda a culpa pela morte de Jesus, limpando o regime e culpando alguns judeus pela morte do Messias. Este artifício foi adotado não somente pelos autores dos outros Evangelhos, mas também pela antiga Igreja cristã. Sem tal artifício, nem os Evangelhos nem a Igreja teriam sobrevivido.

Estudiosos datam o Evangelho de Lucas em aproximadamente 80 d.C. Lucas parece ter sido um médico grego que compôs seu trabalho para um oficial romano de alto escalão em Cesarea, a capital romana da Palestina. Assim, também para Lucas teria sido necessário aplacar e apaziguar os romanos, transferindo a culpa para outro lugar.
Na época em que o Evangelho de Mateus foi composto,  aproximadamente 85 d.C., tal transferência parece ter sido aceita como um fato estabelecido e não foi questionada. Mais da metade do Evangelho de Mateus, de fato, deriva diretamente do de Marcos, embora este tenha sido composto originalmente em grego e reflita características especificamente gregas. O autor parece ter sido um judeu, possivelmente um refugiado da Palestina. Ele não deve ser confundido com o discípulo chamado Mateus, que viveu muito antes, provavelmente falando só o aramaico.
Os Evangelhos de Marcos, Lucas e Mateus são conhecidos coletivamente como os "Evangelhos sinópticos", significando que eles vêem "olho no olho", ou "com um olho",  o que, é claro, não fazem. Entretanto, existem superposições suficientes entre eles para sugerir que sejam derivados de uma fonte comum, uma tradição oral ou algum outro documento perdido depois. Isto os distingue do Evangelho de João, no qual transparecem origens diferentes.
Nada se sabe sobre o autor do quarto Evangelho. Não existem razões para supor que seu nome tenha sido João. Com exceção de João Batista, o nome João não é mencionado em nenhuma passagem do Evangelho. A atribuição desse Evangelho, o último do Novo Testamento, composto por volta de 100 d.C. nas vizinhanças de Éfeso, na Turquia, a um homem chamado João é geralmente aceita como uma tradição posterior. Esse quarto Evangelho revela várias características singulares. Não há nele, por exemplo, a cena de natal, nenhuma descrição do nascimento de Jesus, e a introdução é quase gnóstica. O texto é decididamente de natureza mais mística do que o dos outros Evangelhos, e o conteúdo também difere. Os outros, por exemplo, se concentram primariamente nas atividades de Jesus na província a nordeste da Galiléia e refletem o que parece ser um conhecimento de segunda ou terceira mão dos eventos no sul, na Judéia e em Jerusalém, incluindo a crucificação. O quarto Evangelho, em contraste, diz relativamente pouco sobre a Galiléia. Lida exaustivamente com os eventos na Judéia e em Jerusalém, que concluem a carreira de Jesus, e sua narrativa da crucificação pode se basear em algum testemunho ocular. Também contém vários episódios e incidentes que não figuram nos outros Evangelhos: o casamento de Canaã, os papéis de Nicodemus e de José de Arimatéia, e a cura de Lázaro (embora este último tenha sido incluído no Evangelho de Marcos). Com base em tais fatores, estudiosos modernos têm sugerido que o Evangelho de João, a despeito de sua composição tardia, pode ser o mais fidedigno e historicamente acurado dos quatro.
Um estudioso moderno observa que o texto reflete um conhecimento topográfico aparentemente de primeira mão da Jerusalém de antes da revolta de 66 d.C. O mesmo autor conclui: "Por trás do quarto Evangelho existe uma velha tradição independente dos outros Evangelhos." Não é uma opinião isolada, mas a que prevalece entre os estudiosos da Bíblia. De acordo com outro autor, "o Evangelho de João, embora diferente da moldura cronológica de Marcos e mais tardio, parece conhecer uma tradição relacionada com Jesus que deve ser primitiva e autêntica".
É conclusivo então, que o quarto Evangelho era o mais fidedigno dos livros do Novo Testamento, embora ele tenha sido, como os outros, sujeito a alterações, edições, expurgos e revisões. E é  no quarto Evangelho que encontramos as evidências mais persuasivas para uma intrigante hipótese.

Uma das cópias mais antigas do Evangelho de João, considerados por muitos, um Evangelho Gnóstico

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Especial Semana Santa: O Rei Sacerdote que Nunca Reinou

A maioria das pessoas hoje fala de cristandade como se se tratasse de uma coisa específica, uma entidade coerente, homogênea e unificada. É desnecessário dizer que cristandade não é nada disto. Como todos sabem, existem numerosas formas de cristandade, como o catolicismo romano e a igreja anglicana, iniciada por Henrique VIII. Existem múltiplas congregações evangélicas, como os adventistas do sétimo dia e as testemunhas de Jeová. E existem diversas seitas e cultos, como os filhos de Deus e a Igreja da Unificação do reverendo Moon. Assim, fica difícil determinar o que exatamente constitui a cristandade.

Se é que existe um único fator que nos permita falar de cristandade, um fator que ligue as diversas e divergentes crenças, este é o Novo Testamento, e mais particularmente a condição singular atribuída no Novo Testamento a Jesus, sua crucificação e ressurreição. Mesmo os que não subscrevem a verdade literal ou histórica desses eventos, se aceitam sua importância simbólica, são considerados cristãos.

Assim, se existe uma unidade no difuso fenômeno chamado cristandade, ela reside no Novo Testamento, e, mais especificamente, nas narrativas sobre Jesus conhecidas como os quatro Evangelhos. Estas narrativas são popularmente consideradas as de maior autoridade já registradas; muitos cristãos as consideram coerentes e incontestáveis. Os quatro evangelistas, supostos autores dos Evangelhos, são tidos como testemunhas inexpugnáveis que se reforçam e confirmam entre si. Entre as pessoas que hoje se denominam cristãs, relativamente poucas sabem que os quatro Evangelhos não somente se contradizem como, às vezes, discordam violentamente entre si.

No que diz respeito à tradição popular, a origem e o nascimento de Jesus são bem conhecidos. Mas os Evangelhos, nos quais essa tradição é baseada, são consideravelmente mais vagos sobre esse assunto. Somente dois dos Evangelhos, Mateus e Lucas, dizem alguma coisa sobre a origem e o nascimento de Jesus e se contestam flagrantemente. De acordo com Mateus, por exemplo, Jesus era um aristocrata, se não um rei legítimo e de direito, descendente de Davi, via Salomão. De acordo com Lucas, a família de Jesus, embora descendente da casa de Davi, era de uma classe menos elevada. Com base na narrativa de Marcos, por outro lado, surgiu a lenda do "pobre carpinteiro". São genealogias tão discordantes que podem inclusive estar se referindo a duas pessoas bem diferentes. As discrepâncias entre os Evangelhos não se esgotam na questão da genealogia de Jesus. De acordo com Lucas, Jesus, recém-nascido, foi visitado por pastores, de acordo com Mateus, foi visitado por reis. De acordo com Lucas, a família de Jesus vivia em Nazaré. A partir daí se diz que eles teriam viajado (para um censo que a história sugere nunca ter ocorrido)  a Belém, onde Jesus nasceu numa pobre manjedoura. Mas, de acordo com Mateus, a família de Jesus havia sido abastada e residira em Belém todo o tempo, Jesus havia nascido em uma casa. Nessa versão, a perseguição de Herodes aos inocentes impele a família a partir para o Egito, e só depois de seu retorno eles vivem em Nazaré.


Em cada uma dessas narrativas as informações são bastante específicas. Assumindo que o censo tenha de fato ocorrido, elas são perfeitamente plausíveis, embora discordantes. Esta contradição não pode ser racionalizada. Não há como as duas narrativas conflitantes serem corretas, e não há como reconciliá-las. Queiramos admiti-lo ou não, deve ser reconhecido o fato de que um dos Evangelhos está errado, ou ambos estão. Em face de tão inevitável conclusão, os Evangelhos não podem ser considerados incontestáveis. Como podem sê-lo se se impugnam um ao outro?

Quanto mais se estudam os Evangelhos, mais claras se tornam as contradições entre eles. Não concordam entre si nem mesmo quanto à data da crucificação. De acordo com o Evangelho de João, ela ocorreu no dia anterior ao da celebração da libertação dos escravos judeus no Egito. De acordo com os Evangelhos de Marcos, Lucas e Mateus, ocorreu um dia depois. Tampouco os Evangelhos estão de acordo em relação à personalidade e ao caráter de Jesus: um salvador humilde como um cordeiro (Lucas), um poderoso e majestoso soberano, que veio "trazer a espada e não a paz" (Mateus). Existe outra discordância sobre as últimas palavras de Jesus na cruz. Em Mateus e em Marcos estas palavras foram: "Meu Deus, Meu Deus, por que me abandonastes?" Em Lucas, foram: "Pai, perdoai-os, pois eles não sabem o que fazem." Em João, simplesmente: "Está terminado.”
Dadas tais discrepâncias, os Evangelhos só podem ser considerados uma autoridade altamente questionável e certamente não definitiva. A Bíblia, deve ser lembrado e isto se aplica ao Velho e ao Novo Testamento, é uma seleção de trabalhos e em muitos aspectos, uma seleção arbitrária. Na realidade, ela poderia bem conter muito mais livros e escritos do que de fato contém. E não é uma questão de livros que tenham sido perdidos. Pelo contrário. Houve os deliberadamente excluídos.

Em 1958, por exemplo, o professor Morton Smith, da Universidade de Columbia, descobriu, em um monastério próximo a Jerusalém, uma carta que continha um fragmento inédito do Evangelho de Marcos. O fragmento não tinha sido perdido, mas aparentemente suprimido, sob a instigação, se não pedido expresso, do bispo Clemente de Alexandria, um dos mais venerados antigos padres da Igreja. Clemente, parece, tinha recebido uma carta de um certo Theodo­re, que reclamava de uma seita gnóstica, os carpocracianos. Os carpocracianos pareciam estar interpretando algumas passagens do Evangelho de Marcos segundo seus próprios princípios, que não estavam de acordo com a posição de Clemente e de Theodore. Como conseqüência, Theodore aparentemente os atacou e registrou sua ação junto a Clemente. Na carta encontrada pelo professor Smith, Clemente responde a seu discípulo da seguinte forma:

Você fez bem em silenciar os indescritíveis ensinamentos dos carpocra­cianos. Pois estes são as "estrelas errantes" da profecia, que se desviam da estrada estreita dos mandamentos para um abismo sem fronteiras de pecados carnais. Pois, orgulhando-se de seu conhecimento, como eles dizem, "das profundas [coisas] de Satã", eles não sabem que estão se jogando no "baixo mundo da escuridão" da falsidade, e, vangloriando-se de serem livres, eles se tornaram escravos de desejos servis. Tais [homens] devem ser combatidos de todas as maneiras e completamente. Pois, mesmo que eles digam alguma verdade, quem ama a verdade não deve, mesmo assim, concordar com eles. Pois nem todas as verdadeiras [coisas] são a verdade, nem deveria aquela verdade que [meramente] parece verdadeira segundo opiniões humanas ser preferida à verdade absoluta, aquela da fé.

Trata-se de uma afirmação extraordinária para um padre. De fato, Clemente está dizendo nada menos que, "se seu oponente estiver dizendo a verdade, você deve negá-la e mentir para refutá-lo". Mas isto não é tudo. Na passagem que se segue, a carta de Clemente continua discutindo o Evangelho de Marcos e seu "mau uso" pelos carpocra­cianos:

[Quanto a] Marcos, então, durante a estada de Pedro em Roma, ele escreveu [uma narrativa sobre] os feitos do Senhor, sem contudo declarar todos, nem ainda insinuar os secretos, mas selecionando aqueles que ele pensou mais úteis para aumentar a fé dos que estavam sendo instruídos. Mas quando Pedro morreu como um mártir, Marcos veio a Alexandria, trazendo suas notas e aquelas de Pedro, das quais ele transferiu para o seu livro anterior as coisas adequadas ao que quer que leve a progressos na direção do conhecimento [gnose]. [Então] ele compôs para uso um Evangelho mais espiritual que aqueles que estavam sendo aperfeiçoados. Entretanto, ele não divulgou as coisas que não deviam ser pronunciadas, nem escreveu os ensinamentos hierophanticos do Senhor, mas às histórias já escritas ele adicionou outras e, além disso, trouxe alguns dizeres dos quais ele sabia que a interpretação guiaria os ouvintes até os mais recônditos santuários da verdade oculta pelos sete [véus]. Então, em suma, ele pré-arranjou assuntos, nem de má vontade nem de forma incauta, em minha opinião, e, ao morrer, ele deixou sua composição na igreja de Alexandria, onde ela é ainda mais cautelosamente guardada, sendo lida somente por aqueles iniciados nos grandes mistérios.
Mas como os loucos demônios estão sempre planejando destruição para a raça humana, Carpocrates, instruído por eles e utilizando-se de artes malévolas, escravizou alguns presbíteros da igreja de Alexandria de tal modo que conseguiu uma cópia do Evangelho secreto, que ele interpretou segundo sua doutrina blasfema e carnal e, além disso, poluiu, misturando palavras límpidas e sagradas com vergonhosas mentiras.

Assim, Clemente reconheceu livremente que existe um autêntico evangelho secreto de Marcos. E instruiu Theodore a negá-lo:

Àqueles [os carpocracianos], desta forma, como eu disse antes, não se deve dar trégua jamais. Quando eles lançam suas falsificações, não devemos conceder que o Evangelho secreto é o de Marcos, mas devemos sempre negá-lo sob juramento. Pois "nem todas as verdadeiras [coisas] devem ser ditas a todos os homens".

O que era este "evangelho secreto" que Clemente ordenou a seu discípulo repudiar e que os carpocracianos estavam interpretando de forma má? Clemente responde a pergunta ao incluir a transcrição do texto, palavra por palavra, em sua carta:

Para você, eu não hesitarei em responder [às perguntas] que perguntou, refutando todas as falsificações pelas verdadeiras palavras do Evangelho. Por exemplo, depois de "E eles seguiram na estrada que ia para Jerusalém" e o que se segue, até "Depois de três dias ele subirá", [o Evangelho secreto] traz o seguinte [material] palavra por palavra:
"E eles chegam a Betânia, e uma mulher, cujo irmão havia morrido, estava lá. E, vindo, ela se prostrou ante Jesus e lhe disse: filho de Davi, tenha piedade de mim. Mas os discípulos a empurraram. E Jesus, ficando com raiva, foi com ela até o jardim onde estava a tumba e, imediatamente, um grande grito foi ouvido da tumba. Chegando perto, Jesus afastou a pedra da porta da tumba. E imediatamente, indo na direção de onde estava o jovem, ele estendeu sua mão e o levantou, segurando-o pela mão. Mas o jovem, olhando para ele, o amou e começou a implorar que pudesse segui-lo. E saindo da tumba eles foram para a casa do jovem, pois ele era rico. E depois de seis dias, Jesus lhe disse o que fazer e à noite o jovem foi ter com ele, usando uma roupa de linho sobre [seu corpo] nu. E ele permaneceu com ele aquela noite, pois Jesus ensinou-lhe o mistério do reino de Deus. E então, se levantando, ele retornou ao outro lado do Jordão."

Este episódio não aparece em nenhuma versão do Evangelho de Marcos. Entretanto, é bastante familiar em suas linhas gerais. Existe, é claro, a cura de Lázaro, descrita no quarto Evangelho, atribuído a João. Na versão citada, contudo, existem algumas variações significativas. Em primeiro lugar, existe um "grande grito" na tumba antes que Jesus afaste a rocha ou instrua seu ocupante a levantar-se. Isto sugere que o ocupante não estava morto, negando assim qualquer elemento miraculoso. Em segundo lugar, no episódio de Lázaro parece haver algo mais do que as narrativas aceitas nos levam a acreditar. Certamente, a passagem citada atesta alguma relação especial entre o homem na tumba e o homem que o "ressuscita". Alguns, talvez sejam tentados a ver uma insinuação de homossexualidade. É possível que os carpocracianos, uma seita que aspirava à transcendência dos sentidos por meio da saciedade, discernisse precisamente tal insinuação. Mas, como argumenta o professor Smith, é na realidade muito mais provável que todo o episódio se refira a uma iniciação, uma morte e renascimento rituais e simbólicos, de um tipo muito comum no Oriente Médio da época.

Em todo caso, o aspecto central é que o episódio, e a passagem citada acima, não aparece em nenhuma versão moderna ou aceita de Marcos. Realmente, as únicas referências a Lázaro, ou a um personagem chamado Lázaro, no Novo Testamento estão no Evangelho atribuído a João. Fica assim evidente que o conselho de Clemente foi aceito, não somente por Theodore, mas também por autoridades posteriores. O incidente com Lázaro foi completamente excluído do Evangelho de Marcos.

Se o Evangelho de Marcos foi tão dramaticamente expurgado, ele foi também carregado com adições espúrias. Em sua versão original ele termina com a crucificação, o enterro e a tumba vazia. Não existe a cena da ressurreição, ou a reunião com os discípulos. Algumas Bíblias modernas contêm um final mais convencional para o Evangelho de Marcos, incluindo a ressurreição. Mas praticamente todos os estudiosos da Bíblia concordam em que este final expandido é uma adição posterior, datada do final do século II e anexada ao documento original.

Dessa forma, não podemos aceitar os Evangelhos como uma autoridade definitiva e inexpugnável, mas tampouco podemos descartá-los. É certo que eles não foram totalmente fabricados e fornecem algumas das poucas pistas disponíveis sobre o que realmente ocorreu na Terra Santa dois mil anos atrás.

"Ressurreição" de Lázaro: Deliberadamente excluída do Evangelho de Marcos.